Educação
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Desde a mais tenra infância, as crianças se relacionam com muitas pessoas e situações no ambiente em que estão inseridas. Nesse ambiente, além das pessoas, os pequenos também se deparam com a natureza, os animais, os objetos e, aos poucos, vão atribuindo valores a esses “elementos”, a partir da experiência que vivenciam acerca deles. É claro que essas experiências são, na maioria das vezes, narradas pelo adulto que está responsável pela criança naquele momento.

Assim, as cenas da infância se constroem, se revelam e podem ou não se tornarem imortais em nossa memória.

Eu me lembro de um dia em que minha mãe embicou o carro na frente de uma das padarias (e que padarias!) da querida Mooca, bairro em que nasci, para pegar cinco pãezinhos e um leite tipo B de saquinho. Essa parada era nosso hábito de todos os dias, depois de voltarmos do colégio. Ela nos dava uns trocados e, eu ou a minha irmã, íamos sozinhas, pedíamos no balcão e trazíamos orgulhosas a encomenda para o carro. Então, num desses dias, quando voltei para o carro, vi minha mãe do lado de fora, falando firmemente com uma criança que estava na porta da padaria esperando os pais: “ Não faz assim com ele, ele é um bichinho, sente dor...”.

 
QUANDO VIER A PRIMAVERA

Uma coluna diferente

 
Ao invés de uma coluna sobre Educação, que talvez seria o que você, leitor, esperava, a colunista da revista Tudo, Adriana Rodriguez destinou esse espaço a uma linda homenagem para uma educadora e grande amiga. Elisa Nico que partiu recentemente. E aqui está o adeus de sua colega de trabalho, de alunos, pais de alunos e familiares.
Um singelo tributo para alguém que merece o mundo todo.

Se foi em uma tarde qualquer, sem alarde, sem trombetas, simplesmente se foi. Ainda guardo a sua voz firme e carregada de tantos significados para mim nos últimos áudios do WhatsApp.

Eu colaboro escrevendo para a revista TUdo desde 2014, e era para ela que eu mostrava meus textos antes de entregá-los à redação. Assim era a parceria; de encorajamento, validação, incentivo. Esse mês será diferente.

Dona da intervenção pontual, firme, mas carregada de afeto e de vínculo, tinha na sala de aula o seu templo, o porto seguro de quem lá ancorava o lugar das aprendizagens. Mudou vidas; sabia sempre o que fazer; sensível, olhava lá na frente. Um dia cheguei em sua sala e ela estava cortando as unhas de um menino. Perguntei o que estava havendo e ela respondeu:
“Ele só corta comigo!”
Era isso e muito mais...
A responsabilidade de um professor diante dos seus alunos é imensa! Uma palavra, uma ação. Coisas simples da rotina, do cotidiano, se não forem bem encaminhadas, tratadas, podem reverberar, tomar um tamanho equivocado e negativo na vida de uma criança. São no mínimo quatro ou cinco horas diárias de convívio, corpo a corpo, sob o mesmo sol, sob o mesmo frio. E ela estava lá, com os seus, recebendo e entregando, consolidando de um jeito artesanal, pessoal e intransferível.

Um dia ela me ligou chorando, lendo um relatório de fim de ano de um aluno. A cada frase um soluço. O momento de entrega de um grupo sempre é mais forte, mas doído. Ela sentia e tudo bem sentir.

Dessa vez ela entregou o grupo e seu foi. Não foi notícia do jornal, nem esse evento vai se tornar feriado nacional, mas, para mim, e para muita gente, naquela tarde que de repente se calou, alguém muito especial partiu.

Pode ser que você, leitor, nem imagine de quem estamos falando, mas acredite: alguém muito importante nos deixou; uma pessoa comum, uma professora de uma Escola da região, mas o fato aqui é trombetear para quem puder e quiser ouvir, que é nessa relação aparentemente comum do dia a dia, na escola, entre professor e aluno, que residem os mais profundos aprendizados e as mais intensas e singulares experiências; as trocas que ficam para a vida.

Dessa vez, despeço-me deixando uma canção abaixo, muito querida por ela e lembrada pelas crianças para homenageá-la:


Um dia cheguei em sua sala (de aula) e ela estava cortando as unhas de um menino. Perguntei o que estava havendo e ela respondeu:
“Ele só corta comigo!”



 
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