Marília Gabriela Chega a hora de parar


Por Michele Marreira

Marília Gabriela Baston de Toledo é ligada no 220. E hoje, aos 69 anos, optou por colocar o pé no freio e respirar tranquila, sem horários, reuniões de pauta e produções incessantes.
São quase 50 anos de carreira que ela prefere não contabilizar. Marília não é fã dos números e não sabe nem quanto pesa. Mas também, pra que?
Esbelta, linda e sensual, ela se dedica aos pilates há mais de 10 anos, bebe seis copos de água quando acorda, ainda e jejum, e não pega sol para manter a cútis rejuvenescida.
É fã das vitaminas.


Jornalista admirada e ex-mulher do galã Reinado Gianecchini, iniciou carreira como estagiária do
Jornal Nacional em 1969 e, uma década depois, fez história como âncora do extinto TV Mulher, ao lado do apresentador Ney Gonçalves Dias, da então sexóloga Marta Suplicy, do saudoso estilista Clodovil Hernandez, entre outras celebridades. Após sua saída do programa, experimentou outras veias da profissão aceitando o desafio de ser correspondente da TV Globo na Inglaterra para o dominical Fantástico.
Nesse formato, integrou diversas atrações em diferentes emissoras:
Cara a Cara (Bandeirantes), Marília Gabriela Entrevista (GNT), Gabi (Rede TV), De Frente com Gabi (SBT).
Marília chegou a apresentar programas em três canais diferentes, simultaneamente.

Fez uma passagem de um ano pela TV Cultura no tradicional
Roda Viva. Mulher à frente de seu tempo, no começo da profissão precisou lutar por salários justos; queria receber a mesma quantia que recebia seus colegas homens na época.
Ela vibra com o movimento em prol da mulher que a era digital possibilita nos dias de hoje.

Gabi também canta! E bem. Gravou três discos; dois pela Som Livre - sendo o primeiro com participações especiais de Simone e Caetano Veloso e o segundo com direção musical de César Camargo Mariano - e um pela Universal Music intitulado Perdida de Amor.

Decidiu se enveredar pelo caminho das artes cênicas no ano de 2001, ao protagonizar o espetáculo teatral Esperando Beckett, escrito e dirigido pelo conceituado dramaturgo Gerald Thomas. Sua relação com os palcos é de entrega e sintonia. Viveu diferentes perfis no tablado em projetos como Lady Macbeth, Aquela Mulher, Vanya e Sonia e Masha e Spike, se dedicando ano passado na peça Constelações, contracenada com o ator Caco Ciocler.
Mas não pense que Marília se aventurou. Além de seguir os passos da irmã mais velha, que fez teatro universitário, estudou artes cênicas enquanto ingressava na faculdade de jornalismo.

Na telinha, mergulhou de cabeça no papel de duas mulheres destemidas, Josefa e Guilhermina, respectivamente, numa mesma trama em fases distintas, ao fazer seu
début na novela Senhora do Destino, de Agnaldo Silva. Ainda na dramaturgia da Rede Globo integrou o elenco das tramas JK, Duas Caras, Cinquentinha.
Haja Wikipédia para tanto trabalho.

Agora, Marília quer mesmo é curtir preguiça.

Resolvi aproveitar um pouco mais a minha vida, me dedicar a outros interesses”, sintetiza. Solteira, mãe de dois filhos – Christiano e Theodoro - e avó de Valentina, decidiu se reinventar no aspecto pessoal.

Depois do segredo de beleza revelado e um turbilhão de trabalhos relembrados, chegou a hora de você ficar de frente com Marília Gabriela.
Boa leitura.

Revista TUDO: É taxativo, Gabi? Você não volta mais para a TV?
Marília Gabriela:
Um belo dia eu pensei sobre o que é viver; será que é fazendo tudo, gastando todo seu tempo se dividindo entre família, criação de filhos, trabalho, trabalho e mais trabalho? E um dia a gente simplesmente morre. Comecei a me desapegar um pouco. E me dei a liberdade de parar. É um processo traiçoeiro trabalhar em televisão e depois tentar se desapegar, entrar em um tipo de esquecimento, mergulhar em nossa individualidade, sem a atenção e o paparico que esse veículo proporciona. Estou conseguindo de alguma maneira. Hoje em dia o ser humano consegue essa evidência por meio das redes sociais. É muito fácil ter pessoas que te acompanham, paparicam dizendo que você é linda e maravilhosa (risos). É um atrativo, uma isca. Eu cheguei ao raciocínio de que um dia vou embora. Eu trabalhava muito, sempre com horários apertados e muitas obrigações. Resolvi que eu gostaria de aproveitar um pouco mais a minha vida, me dedicar a outros interesses. Por isso parei de trabalhar em TV. Mas vira e mexe me chamam para participações; fiz algumas passagens pela internet com entrevistas também.

Você está dizendo que desacelerou. O que tem feito no tempo livre? Estou com 69 anos e “parei” com gente me dizendo para continuar. Recentemente passei um mês e meio visitando neta, filho e nora que moram nos Estados Unidos. Eu não poderia fazer isso antes. Economizei tanto a vida inteira, agora vou usar (risos). Me organizei para que eu possa me dar esse luxo de ficar um período sem trabalhar. Eu tinha prazer em realizar o meu trabalho, porém, a repetição e a obrigatoriedade que nos escravizam ao longo da vida eu não quero mais. Faço isso sem culpa. As minhas obrigações eu estabeleço com prazo de duração. Medo nunca fez parte do meu repertório. Parei porque quis, um privilégio.

Mesmo nesse período sabático, quais são os seus planos na carreira para esse ano de 2018, que está apenas começando?
Na TV, fui convidada para fazer uma participação numa minissérie e aceitei. Retornarei aos palcos em um projeto que comprei os direitos autorais. É uma peça de teatro que assisti na Broadway e, quando comecei a ler sobre o texto, me interessei muito em fazer e montar o espetáculo. Eu gosto de peças que distraiam, mas que tenham conteúdo. Teatro é o lugar onde realmente se discute a vida. Se eu conseguir que as pessoas percebam o que me move naquele contexto, já me sinto satisfeita. Ano passado me dediquei ao teatro e isso trouxe um tipo de retribuição muito interessante.

Já sofreu algum tipo de assédio ou preconceito na vida ou no trabalho, Gabi?
Às vezes me sinto desconfortável quando testemunho, ouço e vejo mulheres sofrendo discriminação. No início de carreira, por um longo período, eu ganhei menos do que os homens que trabalhavam comigo, ainda que eu encabeçasse um elenco de um determinado programa. Eu era desbravadora. Briguei muito pelos meus salários. Nasci e cresci em uma época em que mulheres foram à luta, quebraram a cara, acertaram, mas tudo na tentativa de batalhar por seus espaços.

Em mais de quatro décadas de carreira teve alguma entrevista que te marcou ou alguém que desejasse muito entrevistar?
Houve uma época em que achava que existiam entrevistas que poderiam ser mais importantes e perseguia alguns nomes “medalhões”. Mas, conforme você vai praticando sua profissão, descobre que, se bem explorado, todo mundo tem uma boa história para contar.
Não existe entrevistado melhor do que o outro.

Envelhecer é um processo que te assusta? Quais são as suas impressões da Terceira Idade?
Envelhecer com qualidade é envelhecer com saúde. Nesse processo, é importante se estruturar no físico e no psicológico de tal maneira que, ao chegar na velhice, não a percebamos. É importante ter a consciência de que estamos passando por esse processo, que irá nos afetar pontualmente porque isso é inevitável. Muitas pessoas sentem medo do envelhecimento porque logo depois vem o quê? A morte. Eu achei muito relevante uma pesquisa realizada recentemente pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) de SP em parceria com a Bayer: hoje em dia estão redefinindo o significado de “terceira idade”. Mais ativos do que nunca, homens e mulheres com mais de 55 anos não só vivem mais como vivem com qualidade. De acordo com o estudo, o envelhecimento está em pauta na vida de pessoas acima dos 55 anos. E segundo o IBGE, a expectativa média de vida do brasileiro, hoje, é de 77 anos.

O sexo nessa fase mais madura da vida, melhora, piora ou estagna?
Eu fico fascinada quando vejo mulheres, numa certa idade, dizendo sentir um fogaréu (risos), uma libido enlouquecida. A minha baixou consideravelmente, apesar da minha reposição hormonal. Faz parte também do envelhecimento. Namorei e casei bastante, tive uma vida sexual muito ativa, sempre. De uns tempos para cá, já não me importa tanto quanto sair para conversar com amigos, jantar fora, ir ao teatro ou cinema morrer de rir e voltar para casa para dormir. Essa constatação não me causou qualquer problema, não me perturba.

Como costuma ser sua rotina de beleza? E quais são seus cuidados com a alimentação?
Pratico pilates avançado diariamente, tomo litros de água e durmo oito horas por noite. Tomo um belíssimo café da manhã com pelo menos duas frutas e cereais. Eu me alimento bem, sou comilona. Utilizo diversos cremes, gosto de usar cosméticos para revitalizar minha pele.

Você é boa na cozinha?
Sou uma terrível cozinheira. Cismava ser a responsável por fazer a ceia no natal em família com meus filhos ainda crianças. Eu cozinhava e ao final perguntava se todos estavam gostando. Com a resposta, logo o espírito natalino desaparecia (risos). Sei fazer alguns pratos, mas não é a minha vocação prioritária.

Alguma curiosidade inusitada que o público desconheça?
Tem uma! Antes de dormir, coloco o relógio para despertar e faço umas cinco palavras cruzadas.


Antes de ir para a televisão, Marília Gabriela se formou professora primária. Anos depois ela cursaria ainda cinema, publicidade, artes plásticas e psicologia, sem concluir nenhum dos cursos.

Nascida em Campinas e com quase 50 anos de carreira, a jornalista já entrevistou cerca de 10 mil personalidades dentre elas Elton John, Yasser Arafat e Fidel Castro.

Em 1999, após um ano de namoro, Marília Gabriela casou-se com o modelo e ator Reynaldo Gianecchini, vinte e quatro anos mais novo do que ela (inclusive mais novo do que o primeiro filho). No dia 27 de outubro de 2006, a assessoria de imprensa anunciou a separação do casal.



 

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